Representatividade: porque ela importa

Representatividade: porque ela importa

A ideia de que o mundo precisa abrir espaço para uma maior representatividade de todos os grupos sociais, incluindo raça, gênero, orientação sexual  e outras diferenças se amplia diariamente. Hoje é inviável que qualquer iniciativa ou movimento que pretenda ter algum significado social não leve isso em consideração, principalmente na mídia e na política. 

Assim, quando falamos de representatividade, alguns exemplos e bandeiras são hoje bastante recorrentes. Entre entre eles: o combate ao racismo, a proteção dos povos indígenas, a luta feminista, e os direitos LGBTQIA+ (e todas as letras que vão aos poucos se juntando a essa sigla). Estas são as causas – ou as pautas identitárias, na linguagem sociopolítica – que vem ganhando cada vez mais destaque.

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Se olharmos com atenção, existe algo em comum entre todos esses grupos: nos referimos a eles como minorias. Na verdade, não o são em quantidade, mas em representação.

Na prática, são grupos de pessoas que não ocupam certos espaços públicos. Você dificilmente as verá em cargos e posições de liderança e de maior prestígio social, como na política, televisão, música, e nos cargos de maior poder econômico, influenciando decisões empresariais.

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Como garantir que a representatividade cresça? 

Quando vemos, por exemplo, que o número de alunos negros em universidades aumentou 75% em 4 anos, como mostra uma pesquisa da plataforma Quero Bolsa, divulgada em outubro, notamos um claro aumento da representação desse grupo étnico-social no ensino superior. Existe portanto êxito em políticas públicas nesse sentido. Então, por que não as estimulamos ainda mais?

A forma mais eficaz de garantir que a representatividade exista é através da proteção dos princípios do Estado Democrático de Direito. Isto significa que as instituições governamentais, assim como as privadas, têm que resguardar princípios como da igualdade entre todos os cidadãos. E também devem tratar de todos como iguais. 

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No entanto, os representantes que aprovam leis e ocupam cargos de maior poder nem sempre representam a todos. Consequentemente, suas decisões não são inclusivas, nem representam os interesses de minorias. Para reverter essa situação têm-se que corrigir várias desigualdades estruturais, que são a origem dessa falta de representatividade.

Por isso, boas práticas como as que rede de lojas Magazine Luiza adotou, criando um treinamento profissional somente para funcionários negros, e a que outras empresas vêm aderindo, têm ganhado evidência. Elas geram debates, sem dúvida, mas o próprio debate já é benéfico. Além de validar o ponto de que a inclusão é indispensável, medidas como essas ainda geram boa publicidade para as empresas. 

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Representatividade conta

Quando procuramos no dicionário, representatividade aparece como um termo que expressa uma qualidade. Significa a identificação com um grupo, e o compartilhamento de experiências, impressões, sentimentos e pensamentos entre seus membros.

Embora no contexto atual a palavra tenha uma conotação de disputa por espaço, existem outras formas de manifestar a representatividade além da “cota de vagas” para minorias. Nesse sentido, a própria existência partidos políticos, sindicatos de classes e setoriais, movimentos sociais  identitários de bandeiras como a estudantil, feminista, negro, LGBTQI+ – constitui uma forma de expressar a representação.

A representatividade nas artes e mídias também faz uma contribuição importante. O exemplo da mulher negra representada como empregada doméstica está sendo superado pelo da empreendedora, ativista,  intelectual, enfim, vencedora. Mas ainda falta muito para que todos os grupos se identifiquem com a imagem do atual retrato social.

O retrato social

Decerto dá pra entender que a falta de representatividade gere problemas de identidade: é como se você não se visse no espelho. Quando isso acontece desde a infância, você cresce com sentimento de que foi deixado de fora. Imagine se você nunca vir alguém que se pareça com você na televisão, revistas e outdoors. Ou, quando vê, é sempre em situações de inferioridade ou mesmo à margem da sociedade.

É isso que vivem inúmeras crianças e adolescentes negros, indígenas ou homossexuais, por exemplo. Sem falar nos transexuais, que até há pouco passavam por inexistentes.

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Graças a esses movimentos que exigem o devido espaço com cada vez maior determinação, pouco a pouco esses grupos de diversidade vão deixando de ser esteriótipos para impor sua legitimidade no cenário social, cultural, econômico e político.

Veja esse exemplo de 2015. No filme “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”, um dos protagonistas era Finn, interpretado pelo ator inglês – e negro – John Boyega. Apesar de reclamações sobre a presença de um não-caucasiano na trama, o longa se tornou, na época, o filme com a maior bilheteria dos EUA.

Ainda naquele mesmo período, a foto do garoto Matias Melquíades segurando o boneco do personagem viralizou nas redes sociais e levantou debates relativos à representatividade.

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Como reparar a falta de representatividade? 

Assim como no campo político, precisamos ter em mente que grupos identitários e classes socioeconômicas distantes da dominante não estão presentes em diversos espaços sociais.

Mais um exemplo disto é a baixa proporção de mulheres em cargos executivos e representativos nas assembleias legislativa, como CEOs em empresas.

Não é à toa que nesta atual campanha pela presidência dos Estados Unidos, pela primeira vez na história o debate entre os dois candidatos à vice-presidência tenha tido uma audiência muito maior que o dos candidatos principais.

Kamala Harris, candidata à vice do democrata Joe Biden, é uma advogada, senadora  brilhantemente articulada e carismática. E, além de ser mulher e mãe, é de origem negra e indiana. É a nova “darling” da mídia internacional.

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Kamala Harris, candidata democrata à vice-presidência dos Estados Unidos

No Brasil, uma nova regra aprovada este ano pelo STF (Supremo Tribunal Federal) já vai mudar as regras do jogo nas próximas eleições municipais. A medida prevê a divisão da verba eleitoral e do tempo de propaganda de forma proporcional entre candidatos negros e brancos. É um processo longo, mas já é um passo importante.

Portanto a busca de representatividade busca garantir a igualdade de oportunidades, tratamento e direitos aos indivíduos que estão organizados em grupos identitários. A criação de cotas para garantir a participação de minorias corrige uma falha do próprio sistema, que deveria garantir tais inclusões naturalmente.

Em outras palavras, a representatividade é entender a inclusão de todos como um direito. Numa busca que também pode ser vista como uma luta por reconhecimento e reparações de discriminações históricas.

 

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