Chega de plástico no oceano!

Chega de plástico no oceano!

Em um futuro não muito distante, quem for tentar dar aquele gostoso mergulho no mar pode acabar entrando numa onda de plástico. Esse é um alerta do Fórum Econômico Mundial de Davos. Se nada for feito, até 2050 haverá mais plástico do que peixes. Chega de plástico no oceano! O volume de lixo sintético tem crescido tanto que está transformando a geografia e ameaçando a vida marinha.

A ideia da onda plástica pode até parecer absurda, mas, infelizmente, não é. A quantidade do material nos mares é tão grande que já existem regiões chamadas de “ilhas de plástico”.

Plástico no oceano 2

Embora elas não estejam oficialmente nos mapas, a comunidade científica já sabe que essas ilhas existem desde 1997. Naquele ano, o capitão e oceanógrafo norte-americano Charles Moore encontrou um mar de plástico tão grande no meio de sua trajetória marítima, que levou sete dias para atravessá-lo.

O que ele descobriu ficou conhecida como “a grande mancha de lixo do Pacífico”. Composta por 1,8 bilhão de pedaços de plástico flutuantes, ela fica na rota entre a Califórnia e o Havaí e possui tamanho – pasmem – equivalente à França, Espanha e Alemanha juntas.

A partir de então, os oceanógrafos detectaram outras concentrações de lixo em alto mar, embora de extensões menores: mais uma no oceano Pacífico, duas no Atlântico e uma no Índico.

Um caminhão de lixo por minuto

Se você se pergunta como todo esse lixo plástico foi parar lá, eis a resposta: estimativas indicam o equivalente a um caminhão de dejetos  de plástico chega ao oceano a cada minuto. Isso que dizer que, diariamente, os os mares recebem o aproximadamente 8 milhões de peças plásticas.

No Brasil, o cenário não é muito diferente. De acordo com a Oceana Brasil, uma organização internacional focada exclusivamente nos oceanos, nosso país é responsável por despejar  325 mil toneladas de resíduo de plástico no oceano todos os anos. Mas a ONG ainda ressalta que essa estimativa é conservadora.

Plástico no oceano 3

A verdade chocante – e que muitos preferem não reconhecer – é que todos temos nossa parcela de culpa nessa triste história, que começou há muito tempo.

O plástico só passou a fazer parte da nossa vida doméstica por volta de 1950. Apareceu mesmo como uma maravilha pós-guerra, que fascinou todos os setores e todas as classes econômicas, por ser um material versátil,  leve, durável e barato.

Assim ele se tornou rapidamente uma solução incontornável para a indústria, que passou a utilizá-lo em quase tudo, desde embalagens a equipamentos médicos e até a peças de aviões.

Do lixo pro mar

Rapidamente, o material passou a ser onipresente. Hoje é praticamente impossível encontrar uma casa ou estabelecimento onde não haja vários objetos plásticos.

Brinquedos, acessórios, material de escritório, ferramentas, utensílios, móveis, equipamentos… O plástico é parte integrante e indissociável do nosso dia a dia.

Sem falar no infinito volume de embalagens, produzidas com diversas versões do material. Bebidas e remédios em garrafas e frascos PET, produtos de higiene e limpeza em PEAD, alimentos em PVC… Tudo plástico.

Nossas compras (embaladas com plástico, obviamente) são transportadas em sacolas – adivinha – plásticas. E como se não bastasse envolver tudo em material sintético, a grande maioria dessas embalagens é projetada para descarte após um único uso.

E daí, vão para o lixo, para os esgotos, para os córregos… que desaguam o plástico no oceano.

Plástico no oceano 4
Dados da Oceana Brasi

Mares se afogando em plástico

Desde que o plástico surgiu, já virou uma ameaça para a vida marinha. Apenas para exemplificar, cientistas conseguiram detectar que desde a década de 60 ele já estava poluindo os oceanos.

Isso foi possível graças a uma engenhoca que se chama “gravador de plâncton contínuo”, que vem coletando e microrganismos que ficam suspensos na água desde a década de 1930, no Atlântico Norte. O plâncton é um indicador da qualidade da água e também uma fonte de alimento para as baleias e outras espécies marinhas.

Pois esse equipamento já atravessou mais de 6,5 milhões de milhas náuticas do oceano nos últimos 60 anos. Os registros dessas travessias revelam que a primeira sacola plástica que o equipamento capturou foi em 1965, na costa da Irlanda.

Desde então, a quantidade desse material recuperada foi crescendo numa rapidez alarmante, e os mares vêm afundando cada vez mais em plástico.

Para ilustrar a gravidade da situação: plástico leva mais de 400 anos para se decompor. A indústria global produz mais de 300 milhões de toneladas de plástico por ano. Desse volume, 50% são produtos descartáveis e 40% disso é jogado fora. Ou seja, 90 milhões de toneladas anuais descartadas por aí.

Somente no Brasil, a indústria produz 2,95 milhões de toneladas de plásticos de uso único. Sabe os copinhos que você usa na praia, e logo depois descarta? Pois é.

Lixo plástico
Dados da Oceana Brasil

Plástico não degrada

Quando se fala de plásticos de uso único, eles estão entre os resíduos que mais poluem a costa de diferentes países do mundo.  As embalagens plásticas de alimentos e bebidas são os itens mais encontrados nas praias do Brasil todos os anos.

De acordo com a análise da Oceana, só no ano de 2018 , chegaram  aos oceanos entre 21 a 34 bilhões de garrafas PET de um litro.  Isso significa 706 mil e 1,1 milhão de toneladas métricas de resíduos de garrafas plásticas.

Além disso, uma vez no mar, o plástico não se degrada. Em vez disso, ele se reparte em pedaços cada vez menores, que se tornam microplásticos com menos de cinco milímetros de tamanho.

Como resultado, tais partículas percorrem as correntes oceânicas, acabam sendo capturadas pelos redemoinhos marítimos e assim, aos poucos, vão se formando as ilhas de lixo plástico.

Plástico no oceano 5

Destruição da vida marinha

O problema, entretanto, não pára aí. Conforme o plástico se alastra pelos oceanos, a lista de espécies marinhas afetadas também vai crescendo.

São milhares de animais que ficam presos no lixo marinho. Eles também confundem plástico com comida ou mesmo ingerem microplásticos de forma involuntária só por abrir a boca. O impacto do lixo humano não só altera os habitats naturais da fauna marinha, como destrói a vida aquática.

Por essa razão, no começo deste verão, a Oceana e a agência 3AW criaram uma nova campanha que promove a conscientização do uso do plástico. Com o mote “O plástico que acaba no mar, acaba com o mar”, o filme sintetisa as consequências da produção e do uso excessivo do plástico:

Mas ameaça não atinge apenas os animais marinhos: a ingestão de microplásticos também traz riscos à saúde humana. Evidências sugerem que as pessoas consomem esses resíduos ao comer de peixes e frutos do mar.

Bem mais dramático que a campanha produzida pela 3AW é o vídeo da Oceana Global, que ilustra o impacto do plástico no oceano.

Assim é que, finalmente, governos de todo o planeta têm reconhecido a gravidade dessa poluição, e tentado buscar alternativas para diminuir a oferta de plásticos de uso único.

São iniciativas que buscam incentivar o uso de materiais mais sustentáveis, mudanças nos padrões de consumo e planos para a implementação de uma gestão de resíduos mais inteligente e eficiente.

Plástico na praia

Mudanças de hábitos

Visto que o mundo está se afogando em plástico, é mais do que necessário encontrar um meio de se libertar dele. Existem diferentes maneiras de fazer a nossa parte e sermos mais sustentáveis.

Eis aqui, portanto, algumas dicas práticas para reduzir – ou até mesmo eliminar- o consumo de plástico mudando apenas alguns hábitos diários:

    1. Prefira sacolas de pano reutilizáveis: tenha o hábito de ter sempre uma sacola de pano à disposição para suas compras. No supermercado, as caixas de papelão podem ser uma solução;
    2. Evite recipientes plásticos: vidro e metal são as melhores opções para armazenar alimentos e outros itens;
    3. Faça um mini kit sustentável: se tiver sempre em mãos um canudo de metal, talheres de bambu e um copo retrátil reutilizável, certamente a necessidade de utilizar a maioria dos plásticos de uso único será reduzida;
    4. Sempre que possível, compre a granel: existem diferentes locais onde já é possível evitar embalagens de alimentos e comprar a granel utilizando os próprios recipientes ou sacolas de papel;
    5. Separe adequadamente o lixo: infelizmente nem todo plástico é reciclável. Mas podemos fazer a nossa parte separando os itens corretamente e ajudando na gestão de resíduos plásticos. Garrafas plásticas duras, frascos de shampoos e brinquedos ​​têm maior probabilidade de serem reciclados

Sem dúvida,  precisamos de ações eficientes em uma escala muito maior para ajudar a limpar nossos mares. Ainda assim, as pequenas ações também podem contribuir para salvar o mundo de se afogar em plástico.

Afinal, como já dizia Clarice Lispector “atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença”.

Com a colaboração de Thalita Mion

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